
Começou esta sexta-feira, em França, o Campeonato do Mundo de Râguebi.
Tenho assistido, com algum interesse, às opiniões que têm sido emitidas acerca da fabulosa, surpreendente e merecida qualificação portuguesa para esta competição.
Tenho ouvido e lido coisas muito interessantes e acertadas, mas também algumas barbaridades apenas explicadas por ingénua ignorância.
Algumas barbaridades lidas foram acerca do seleccionador nacional Tomaz Morais.
No râguebi nacional há o "antes de Tomaz Morais" e o "depois de Tomaz Morais". São os jogadores que jogam, são os jogadores que marcam e defendem, mas foi Tomaz Morais que fez Portugal acreditar e que acreditou no amadurecimento do Râguebi português.
O râguebi português, à imagem de muitas outras modalidades em Portugal, tem raízes amadoras, estruturas e clubes amadores e, como tal, é composto e jogado por jogadores amadores, que na maior parte dos clubes, pagam a sua própria inscrição na Federação e o seu seguro desportivo.
Mas o projecto de Tomaz Morais, que começou há meia dúzia de anos, conseguiu tornar a selecção nacional numa equipa onde apenas os predestinados têm lugar.
Tomaz Morais conseguiu através da sua liderança, baseada em factores organizacionais e de motivação, incutir o seu perfeccionismo, a sua perserverânça ao râguebi nacional, fazendo com que de um leque de jogadores implodissem um querer genuíno fazendo com que, sendo atletas amadores, tivessem fibra de profissionais, acreditassem na sua capacidade individual, na capacidade da equipa da qual fazem parte e tivessem orgulho em ser, e trabalhassem para ser, predestinados.
Estamos a falar de atletas que, tal como a maioria dos portugueses têm família, trabalho e amigos, mas que dispensam o seu tempo livre a lutarem para serem melhores. Pessoas que tiram dias de férias no trabalho, não para férias, mas para representarem Portugal no estrangeiro. Sempre em busca de um sonho. Um sonho muito, muito distante, que apenas o esforço, a dedicação e a devoção tornaram possível - a qualificação da primeira selecção amadora para um Campeonato Mundial de Râguebi.
Quem já leu o livro de Tomaz Morais, quem acompanha o seu trabalho, ou já assistiu a palestras por ele dadas, compreende porque é que o Sporting Clube de Portugal deve ter imenso orgulho em contar com Tomaz Morais do nosso lado.
Outra barbaridade que li foi acerca de alegado excesso de mediatismo dado à Selecção Nacional de Râguebi e ao seu apuramento para este Mundial.
Sobre isto: são admiráveis os feitos de clubes portugueses na Europa do futebol na última década (o FC Porto conquistou uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões, o Sporting Clube de Portugal esteve presente na Final da Taça UEFA). É merecido o orgulho sentido por todos nós nas última actuações da Selecção Nacional de Futebol AA no Euro2004 e no Mundial 2006. Motivos de orgulho sem dúvida. Motivos de orgulho como as dezenas de provas do mundo ganhas por Vanessa Fernandes, e o consequente título mundial, a excelente carreira de Naide Gomes, de Rui Silva, a medalha de ouro de Nelson Évora, os resultados de Pedro Lamy em Gran Turismo, Nuno Delgado e Telma Monteiro no Judo, a presença de Cabeçadas no Team Alinghi, vencedor da America's Cup, os resultados de Tiago Monteiro na F1, a carreira de Carlos Sousa e a sua presença no Lisboa-Dakkar, entre outros. Motivos de orgulho? Sem dúvida?
Se todos estes feitos são motivos de orgulho, porque não é a qualificação d'Os Lobos?
Em Portugal só há jogadores de râguebi amadores, mais de 98% dos portugueses não sabem as regras do Râguebi, os clubes portugueses são amadores e sem condições para investir em formação. Na Nova-Zelândia há jogos da selecção com mais de 100 mil pessoas a assistir ao vivo. 100 mil pagantes! Nos All Blacks apenas podem ser seleccionados jogadores neo-zelandeses que joguem em clubes neo-zelandeses. Qual é a outra selecção, noutro desporto qualquer que se atreva a fazer o mesmo? E a ser a primeira no ranking?
Compreendo a surpresa de muito ao verem tanto alarido com uma "simples" qualificação.
Mas isso é de pessoas que não conhecem o Râguebi. No râguebi não há surpresas: não há Atléticos a ganhar nas Antas e Gondomares a triunfar na Luz, ou Belenenses a perderem com um "frango" em Santiago Bernabéu.
No râguebi não é possível haver anti-jogo, não é possível "pôr uma camionete" à frente da linha de ensaio. No râguebi não há "ronha". Quem faz falta é punido. Não há enganos, há video-árbitro. No râguebi apenas e só apenas os capitães de equipa falam com o árbitro, eles e só eles. Se alguém para além deles dirigue a palavra ao árbitro é punido. No râguebi não há tolerância com faltas anti-desportivas ou com faltas de respeito. No râguebi um amarelo vale 10 minutos num jogo que têm 80. No râguebi há lealdade, há princípios, há honra, há desportivismo e acima de tudo, há respeito. Respeito pelo árbitro, pelo adversário e sem dúvida, pelo público.
Seria quase um milagre Portugal ganhar à Itália. É dificílimo ganharmos à Roménia. Vamos ser cilindrados pela Nova-Zelândia. Perdemos por 46 pontos com a Escócia. E então?
Os objectivos da selecção nacional de râguebi são bem diferentes do que os portugueses estão habituados. Sem dúvida. Mas no desejo de representar dignamente Portugal, na entrega total, no compromisso de deixar tudo dentro de campo, aí, Os Lobos são campeões!
Para todos nós, que Os Lobos nos sirvam de exemplo: através do trabalho, do esforço e do brio. De um querer genuíno, de uma força inabalável, de uma perserverança intocável, de uma crença irredutível. Acreditam. Acreditam neles e na equipa. Que nos sirvam de exemplo.